Um ano na Holanda. O que mudou?

1 ano atrás, 06 de junho de 2016, pegava o avião rumo à Europa. A ideia de ter uma experiência diferente no velho continente pareceu ótima considerando que eu havia recentemente me formado na faculdade e a Vanessa havia vendido a ShopBela.

Assim, 365 dias depois, resolvi fazer um balanço das principais mudanças/curiosidades que aconteceram nesse período vivendo na Holanda. É claro que existem exceções e problemas: a Holanda e o Holandês não são perfeitos e, mesmo nos casos que explico abaixo, às vezes as coisas podem acontecer da forma errada.

João E Vanessa na Polônia

 

  1. Segurança

    Voltar para casa às 4 da madrugada, de bicicleta, com celular e câmera (e possivelmente o notebook), sem tanta iluminação assim e sem sentir um pingo de medo é inacreditável. Estamos tão acostumados a viver em um estado de alerta o tempo todo no Brasil que não nos damos conta de quantas coisas perdemos por causa disso. Ficar na rua com amigos até tarde, sentar em mesinhas na calçada em qualquer restaurante, ou simplesmente correr na rua após o escurecer – coisas que me pareciam tão distantes e perigosas em Porto Alegre passaram a fazer parte da minha rotina. E tente explicar para um Holandês a realidade Brasileira: “O que?? Vão te assaltar e apontar uma arma para você???”
    Para mim, certamente, segurança foi a principal das mudanças.
    Além disso, pichações em muros, sujeira e vandalismo você pode encontrar em algum lugar por aqui, mas com MUITO menos frequência do que no Brasil. E se a polícia te pegar, amigo, aí você vai se dar mal.

  2. Honestidade e Confiança

    Pensei várias vezes e não sei se a escolha da palavra “Honestidade” é realmente a melhor para o que quero explicar, mas vamos lá. Aqui você pega ônibus, trem, metrô ou qualquer outro transporte público sem cobrador: é só passar o cartão e está tudo certo. Existem diversos mercados e lojas de roupa onde você mesmo passa suas compras e faz o pagamento sem precisar falar com ninguém. Me parava para pensar em quantos roubos poderiam ocorrer. Quando peço para um holandês falar mais sobre isso, ele fica surpreso pois acha a situação óbvia: “se estamos recebendo um produto/serviço, temos que pagar por ele. Qual a surpresa nisso?”

  3. Não existe almoço grátis

    Muita gente no Brasil me alertava que a Holanda era uma país praticamente socialista e que o estado ofertava tudo a população: balela!
    De um lado, sim, o imposto é bastante elevado: a faixa mais alta de imposto de renda chega à 52%. O que eu escuto da maioria das pessoas que moram aqui (não apenas holandeses) é: “Sim, o imposto é alto, mas temos serviços públicos que funcionam”. De fato, os serviços oferecidos pelo estado costumam ser muito bons – em comparação ao Brasil (onde qualquer coisa seria melhor que os serviços estatais), mas para isso se paga um preço caro. Além disso, apesar de púlico, boa parte dos serviços costumam ser prestados por empresas privadas. Recentemente houve algumas reclamações sobre os serviços prestados pela empresa estatal de trens da Holanda, e o governo deu um prazo para que a empresa melhorasse seus serviços ou iria privatizá-la.

  4. Saúde grátis?

    Aqui na Holanda todos pagam plano de saúde privado, a não ser que você prove não ter condições – aí existem alguns benefícios estatais que te auxiliam. Você pode levar multas e não conseguir um emprego caso não tenha um plano de saúde. Eu e a Vanessa pagamos, cada um, aproximadamente 100 euros mensais. É claro que, com o plano de saúde, você tem a garantia de um serviço bastante qualificado.

  5. Liberdades individuais

    É incrível ver como o povo holandês é sem preconceitos e extremamente aberto. Negro, gay, católico, muçulmano, ateu, rico, pobre, não interessa: na média, todos são tratados igualmente, com muito respeito e cordialidade. Falo na média pois sempre pode ter algum babaca preconceituoso por aí. O escritório em que trabalho, por exemplo, conta com pessoas de mais de 20 nacionalidades diferentes, algumas religiões que costumam entrar em conflito e as coisas fluem extremamente bem.
    Sobre drogas, eles são extremamente pragmáticos: quer usar drogas? Use, desde que não me incomode ou cause problemas nas ruas. Inclusive, não pense que todas as drogas são liberadas. Apenas a maconha e alguns alucinógenos são liberados, mas extremamente regulamentados.
    Moda? Use a roupa que preferir: tênis, salto, bermuda, calça, não interessa. O que importa é que você seja feliz.

  6. Liberdades econômicas

    Sim, o imposto de renda é alto, mas o imposto sobre o consumo é muito menor do que no Brasil. Por isso, o poder de compra de um trabalhador médio na Holanda é muito superior.
    Além disso, há muito mais flexibilidade para você negociar com seu patrão: quer trabalhar 4 dias por semana? Ok. Quer trabalhar menos horas? Ok.
    Mas nada é perfeito. Aqui, geralmente após dois anos (no meu caso foi mais rápido) você ganha um contrato definitivo de trabalho do seu empregador, o que torna muito mais difícil para que ele possa te demitir. Muitos empreendedores reclamam da dificuldade de demitir alguém na Holanda. E, enquanto muitos podem ver isso como algo bom, na minha opinião apenas trava a economia e cria barreiras para que as empresas cresçam mais rapidamente e se mantenham mais sólidas. Além de manter pessoas pouco produtivas empregadas dificultando a contratação de pessoas mais competentes. Ainda assim, muito mais fácil lidar com isso do que com a palhaçada dos milhares de sindicatos brasileiros.
    Outra coisa diferente é que não existem aqueles absurdos da legislação trabalhista Brasileira que tornam cada vez mais caro e arriscado empreender. Exemplo normal aqui é ver o caixa do mercado ou o atendente do restaurante também fazendo a faxina. Posso estar falando besteira nessa parte, mas acredito que se isso acontece no Brasil, já está dando margens para os esdrúxulos processos trabalhistas que acontecem com cada vez mais frequência.

  7. Qualidade de vida

    Algo que me surpreendeu muito é como o Holandês sabe viver a vida. Sempre ouvia dizer que o Brasileiro tinha uma cultura muito similar aos Norte Americanos e extremamente consumista. E, depois de conhecer alguns países da Europa e o Estados Unidos, posso afirmar que isso é verdade. Lembro como sair no Brasil parece um desfile de moda, uma competição sobre quem tem o melhor carro, a melhor roupa, o melhor celular ou gastou mais dinheiro na festa.
    O Holandês, por outro lado, na média, não se importa se/qual carro você tem, que roupa você usa ou quanto dinheiro tem na conta: o importante para ele é ser feliz. Você vai ver pessoas com estilos completamente diferentes frequentando os mesmos lugares em harmonia, pessoas com grandes cargos em empresas sem ter carros (por opção). O que eles gostam muito de fazer e, aí sim gastam dinheiro, é viajar e aproveitar a vida.
    O que pude perceber com isso, é que assim é muito mais fácil levar uma vida leve e tranquila. E esse é um dos principais aprendizados que quero levar comigo.

  8. Igualdade em coisas básicas

    É claro que os ricos vão ter casas maiores, viajar com mais frequência e comer em restaurantes mais caros. Mas o “pobre” daqui vai ter uma casa com aquecimento, luz, água tratada e internet. Vai poder comprar roupas quando precisar e, se for bastante determinado, pode até conseguir fazer algumas viagens.
    Você abastece seu próprio carro, coloca as suas compras na sacola e mesmo as pessoas ricas não contam com mil empregados em casa; a maior parte prepara sua própria refeição e limpa sua própria casa, contratando, eventualmente, alguma faxineira.

 

O resumo é que tem sido uma experiência incrível e, seja para ficar, seja apenas para um intercâmbio ou mesmo férias, recomendo muito a experiência de conhecer a europa. Poder andar algumas horas de carro e conhecer culturas extremamente diferentes, idiomas diferentes e ver história em todos os lados é impagável.

Quanto ao futuro? Não faço ideia se será na Europa, no Brasil ou em algum outro lugar. Mas se a cada ano eu puder viver e aprender da mesma forma quanto esse ano que passou, estarei bastante satisfeito.

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1 Comment

  1. Talyta Ribeiro
    junho 5, 2017 / 10:35 pm

    Muito interessante seu ponto de vista, amei o post super bem explicado
    sonho muito em ir a Europa. Acho incrível
    Que venha mais anos pela frente para vocês, que possamos viajar junto com vocês em cada experiência.
    Sucesso aos dois

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